segunda-feira, 29 de abril de 2013

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(imagens retiradas da internet)



Vencer a dislexia

Apesar dos mitos e preconceitos, o diagnóstico de dislexia é hoje mais frequente e precoce. Com o devido apoio e muita perseverança, as dificuldades de aprendizagem são quase sempre ultrapassadas. E em lugar da frustração surge a alegria da conquista.

Foi de “coração partido e aflito” que os pais de Inês, na altura com cinco anos, decidiram procurar uma opinião profissional. Na sala de aula, Inês revelava dificuldades objetivas e a sua autoestima caíra “a pique”. Quando lhe perguntavam o que queria ser quando fosse crescida, Inês respondia que “não queria ser nada”, tal era o seu descrédito. A preocupação dos pais era evidente, mas quando ouviram da psicóloga que a sua filha“parecia ter quase todos os fatores de risco possíveis para dislexia” sentiram um alívio. “Afinal, o nosso adversário tem nome”, pensou a mãe, Carla. Com a entrada para o 1º ciclo, “tudo piorou” e a meio do primeiro período a Inês “queria morrer” para não ter de ler na sala de aula. “No Natal, a Inês ainda não lia e só nomeava metade das letras do alfabeto”. Nessa altura, com o diagnóstico confirmado, Inês iniciou o seu processo de “recuperação”. As batalhas foram sendo ganhas aos poucos, com a ajuda e o apoio incondicional dos pais. Na Páscoa, a Inês já lia. “Foi aprendendo a aceitar-se e a aceitar o tipo de trabalho que tinha de fazer”, conta Carla. E, acima de tudo, “voltou a sonhar”. O mais extraordinário foi ver como esta “fisioterapia para o cérebro” se refletiu em todos os aspetos da vida da Inês, “mesmo naqueles que aparentemente não estavam relacionados”. Inês, Carla e a psicóloga que as acompanha continuam a trabalhar juntas, “confiando que, com calma e persistência tudo se consegue, mesmo o que de início parecia inultrapassável.

A história de Inês é apenas um exemplo entre inúmeras crianças que, todos os dias, enfrentam dificuldades de aprendizagem, frustração perante o insucesso e, muitas vezes, desânimo e incompreensão. Em Portugal, estima-se que cerca de 70 por cento das crianças com dificuldades de aprendizagem têm dislexia. Estes alunos “não são preguiçosos, nem imaturos, não têm problemas visuais ou posturais, não são pouco inteligentes, nem é por não gostarem de ler que têm dificuldades”, afirma Leonor Ribeiro, técnica superior de Educação Especial e Reabilitação e coordenadora do Núcleo de Dislexia do Cadin (Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil), explicando que a dislexia “é uma dificuldade crónica, que se manifesta pela dificuldade em aprender a ler, sem que tal esteja relacionado com a qualidade do ensino, o nível intelectual, as oportunidades socioculturais ou as alterações sensoriais”. Este défice tem uma “base neurobiológica, ou seja, existem alterações na estrutura e funcionamento neurológico” e também influências genéticas.


Intervenção precoce

As crianças com dislexia “apresentam uma ‘disrupção’ no sistema neurológico, que dificulta o processamento fonológico e o consequente acesso ao sistema de leitura automática”, acrescenta a psicóloga educacional Paula Teles. Esta dificuldade com as palavras “é mais alargada do que nós pensamos: não é só em relação à linguagem escrita, como também à linguagem oral”. A dificuldade de leitura é precedida de “dificuldades mais ou menos marcadas a nível da fala”. Por isso, “já no pré-escolar é possível sinalizar algumas destas limitações”, alerta Paula Teles, chamando a atenção para a importância da intervenção precoce: quando uma criança “inicia a reeducação aos quatro, cinco anos a recuperação é mais rápida”. Segundo a especialista, e diretora da Clínica de Dislexia, “quanto mais tarde se inicia o trabalho, mais demorada é a recuperação e muito do défice fonológico nunca é recuperado”.

Para os pais de José Miguel, os “problemas” começaram cedo: “recordo-me de sermos chamados para uma reunião com a educadora (ainda na sala dos meninos de um ano) sobre o que ela descrevia como ‘ele põe a sala em alvoroço’, problemas estes que foram contínuos e que nos habituámos a apelidar como ‘problemas de comportamento’”. Já noutro colégio, aos cinco anos, a educadora aconselhou os pais a procurarem o apoio de uma psicóloga, dadas “as evidências de dificuldade de aprendizagem e comportamentos de recusa na elaboração das atividades propostas na sala”. Carla e Ricardo seguiram o conselho e o acompanhamento de psicologia e terapia educacional iniciou-se aos seis anos, já no 1º ano. “Aprendemos então que o nosso filho nunca teve problemas de comportamento, mas sim uma profunda frustração por não acompanhar as atividades e o ritmo de aprendizagem proposto na sala de aula, causando posturas comportamentais desadequadas até no seio familiar e com os outros amigos”, contam os pais.

De facto, confirma Leonor Ribeiro, o que as crianças disléxicas verdadeiramente necessitam é de um “apoio específico e de adaptações no processo de ensino-aprendizagem, para que consigam ter sucesso”. Até porque, quando este apoio tarda, a frustração rapidamente se instala. “É fundamental intervir”, defende Paula Teles, explicando que “assim que a criança começa a ver, logo no primeiro ano, que tem dificuldades sente uma enorme frustração”. E se não tiver o apoio de que necessita “essa frustração vai aumentando”.


Apoio especializado

O problema é que, de acordo com Helena Serra, presidente da DISLEX (Associação Portuguesa de Dislexia), a “referenciação e o diagnóstico estão a ser feitos de uma forma contraditória, assimétrica e inconsistente: há escolas em que são os professores ou diretores de turma que referenciam estes alunos e acompanham os casos com humanidade e respeito; há escolas que não o fazem e, mesmo sendo os pais a fazê-lo, subestimam a situação, dificultam e tornam o processo moroso, numa atitude depreciativa”. Para esta professora jubilada da Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, o tratamento da dislexia “só pode ser assumido por professores especializados, terapeutas e psicólogos (quando existam!), caso contrário não há tratamento adequado”. O que há por vezes é “apoio educativo dado por docentes sem especialização ou formação neste domínio, os quais vão apoiar o aluno, genericamente, em competências de estudo, competências em leitura e escrita ou matemática, mas não se trata de um ‘tratamento’ porque, não conhecendo as abordagens específicas que é necessário fazer de forma a haver de facto uma pedagogia diferenciada, eles não vão naturalmente ‘atacar’ a causa, mas apenas os efeitos”. Opinião idêntica tem Leonor Ribeiro, que considera que “os professores do ensino regular não têm recursos suficientes para, sozinhos, darem a melhor resposta a estes alunos”. Para tal, deve “existir uma equipa multidisciplinar de apoio, que em conjunto partilhe estratégias, preocupações, competências e pense nas melhores respostas para o aluno”.

Carolina Figueiredo terminou o 1º ano do ensino básico com “muitas dificuldades na aprendizagem, tanto na leitura como na escrita”. O que para a professora na altura era “uma situação normal”, para os pais era “uma situação diferente daquela que tínhamos acompanhado com a nossa filha mais velha”. Ao iniciar o 2º ano, “mudou felizmente de professora” e, em conjunto, concluíram que “havia algo de diferente com a Carolina”. Feitas as avaliações, clarificou-se a existência de dislexia. Com o devido acompanhamento, “em poucos meses”, Carolina passou da nota “Não Satisfaz” para “Bom” a língua portuguesa, “conseguindo mesmo alcançar um ‘Excelente’ em áreas específicas da disciplina”, sublinha a mãe, referindo que “não só conseguiu ultrapassar as dificuldades iniciais, como veio a melhorar muito a sua autoestima, acreditando que era capaz de ler corretamente, igualando-se assim aos restantes colegas da turma”.

A perseverança é, para Leonor Ribeiro, a maior aliada e, ao mesmo tempo, o grande desafio das crianças com dislexia. “É preciso ser muito perseverante para conseguir ultrapassar todos os desafios”, muitos dos quais podem manter-se na vida adulta. Apesar de ainda existirem muitos preconceitos e mitos em relação à dislexia, que levam a um “mau entendimento e atendimento dos alunos”, é também óbvio que existe já uma maior sensibilização para este problema, o que é “visível pela identificação de mais casos e cada vez mais precocemente”.

Para que não restem dúvidas, Paula Teles, também ela disléxica, volta a sublinhar: a dislexia é um “défice independente da inteligência”. E, por isso mesmo, “conseguimos arranjar estratégias com muita facilidade para ultrapassarmos a nossa dificuldade”.

A Carolina, o José Miguel e a Inês são a prova de que, com o devido apoio e muita dedicação, é possível vencer a dislexia e deixar para trás a frustração e o demérito, que quase sempre se instalam na mente e no coração destas crianças.


ATENÇÃO AOS SINAIS

Por ser uma dificuldade de aprendizagem da leitura, é natural que não seja possível diagnosticar a dislexia antes da aprendizagem da leitura. No entanto, salienta Leonor Ribeiro, “existem alguns indicadores precoces, identificáveis em idade pré-escolar que nos alertam para a possibilidade de vir a apresentar dificuldades na leitura: a (in)capacidade de pronunciar certas palavras, de cantar cantigas simples e tradicionais e aprender os nomes e os sons das letras do alfabeto, são alguns destes sinais”. Estes sinais observam-se precocemente e mantêm-se, “total ou parcialmente”, durante o desenvolvimento da criança. Com o início da escolaridade, surgem outras características que alertam para a possibilidade de ter dislexia, nomeadamente as “dificuldades na correspondência letra - som, em evitar ler em voz alta, em confundir palavras básicas, em cometer erros de leitura consistentes, com frequência, intensidade e duração significativos, e em dificuldades de compreensão”. Com o insucesso frequente, sublinha Leonor Ribeiro, é “natural que a criança comece a apresentar sinais de desinteresse e de desmotivação pelas aprendizagens”.

O diagnóstico só é possível quando a criança “já usufruiu de oportunidades de aprendizagem da leitura”, no entanto, uma vez que no pré-escolar já é “possível detetar alguns sinais de alerta e áreas de dificuldade”, Leonor Ribeiro considera importante ser iniciada uma “intervenção precoce, de caráter preventivo, para trabalhar as áreas onde a criança apresenta lacunas e que podem interferir com o seu sucesso em aprendizagens futuras”. Porque o mais importante é “evitar o insucesso”. Mais vale “intervir precocemente e mais tarde concluir-se que a criança não tinha uma dislexia, do que aguardar que a criança experiencie o insucesso e fique com um atraso mais marcado nas aprendizagens”. Assim, consegue evitar-se também o indesejável rombo na autoestima.


A IMPORTÂNCIA DA FLUÊNCIA LEITORA

O Ministério da Educação definiu este ano, pela primeira vez, metas curriculares para a competência leitora, uma ferramenta que, na opinião de Paula Teles, é fundamental para os professores do 1º ciclo. As metas definem o número de palavras lidas por minuto para cada ano de escolaridade. Por exemplo, no final do ano letivo, um aluno do 1º ano deverá ser capaz de ler 55 palavras por minuto. Até agora, os “professores achavam, por desconhecimento, que a velocidade da leitura era uma patetice”, afirma a psicóloga educacional, sublinhando que “estas metas são muito importantes”.

Sendo a dislexia uma perturbação da leitura e da escrita, um dos critérios de diagnóstico baseia-se nas competências leitoras: “uma criança é considerada disléxica quando a sua fluência leitora é inferior à média esperada para o seu coeficiente de inteligência e nível de escolaridade”. É por isso que as metas agora definidas pelo Ministério da Educação são “tão importantes”. Agora, os professores “já têm tabelas para cumprir”.

Paula Teles lembra que é frequente ouvir-se dizer que a “velocidade de leitura não interessa, o que interessa é que a compreensão”. No entanto, explica, as pessoas “ignoram que a compreensão depende da fluência, que é a capacidade de ler automaticamente e sem esforço”. Na realidade, as pessoas “só compreendem quando a leitura é automática, caso contrário estão mais focadas na descodificação”. Só se aprende a ler, lendo e “isto é válido para toda a gente, incluindo disléxicos”. Por isso, Paula Teles defende que a leitura “devia ser uma atividade diária obrigatória no ensino básico”, porque “é para isso que ele serve, para as crianças aprenderem a ler e hoje em dia isso é não é valorizado”.



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